Sobre a peça Uma flor de dama:
Cenário composto por poucos objetos, algo simples, mas carregado de simbologia. Antes de tudo começar, a preocupação pelos detalhes é constante: luz, câmera, ação!
Pessoas começam a entrar carregando consigo suas diferenças, sua Diversidade. Aquele cenário já pronto, ganha vida e uma outra forma, o palco e a plateia parecem se misturar.
Grande é a expectativa. Por que a garrafa sobre a mesa? Por que o aparelho sanitário isolado ao fundo? E a luz solitária no teto? Quem é a tal personagem? Ou porque não perguntar quem é a tal travesti? Será um ator uma travesti?
O espetáculo começa com uma linda canção, dublada, primeiro momento que nos leva a uma reflexão, uma admiração. Viemos para rir? Rir de quem? Seria mais uma fuga ao marginal, a ideia de felicidade no palco, o palco que nos torna poderosas/os? O que está por trás desta travesti?
Minha resposta veio em seguida com a descaracterização da artista de boate para a Gisele, a garota de programa. Diante de todo o glamour, o poder, a glória de subir ao palco, tudo isso se perde na humilhante forma de fazer a vida. Humilhante? Talvez exaustivo, mas humilhante?
“Eu, por exemplo, nordestino, pobre e viado, aí lascou tudo, né?”, “E a essência, aquilo que você chama de verdade?”, diz Gisele parecendo olhar em meus olhos. Ser somente artista não seria suficiente. A verdade dela não era a mesma verdade da sociedade, a mesma essência. Mas onde estaria Gisele, senão na própria sociedade? Como fica a artista, quando a prostituição se torna a “saída”? Ou seria a prostituição também uma escolha?
Um tempo de silêncio, apenas o corpo falando. O corpo utilizado para expressar a vida da Gisele, seus sentimentos...
“Deixa a vida te lavar a alma!”, “Eu tenho nojo de você, disse meu pai”. E de repente a plateia que parecia rir freneticamente, começa a esfriar, a ficar mais atentar a personagem, cala-se, ri, chora, a Roda começou!
Assuntos como religião, estupro, abuso sexual infantil, drogas, tudo contado de forma natural, orgânica. Falar sobre a morte ainda nos dá medo? Alguém já viu a morte? Sexo está na cabeça? Mas, e o sexo? “Sexo é sozinho. Sexo é mentira. Sexo é loucura”. Era a Roda Viva, essa roda que não para de girar como diria nosso querido poeta e compositor Chico Buarque.
Mas quem roda na roda? “Só sei que quem não tá na roda, não segura nada”. A Gisele ou nessa altura do espetáculo, a Gi parece filosofar, refletir sobre a tal Roda. E o importante é isso que ainda não veio, o me faz lembrar da divina Clarice Lispector: “o que eu quero ainda não tem nome”.
E enquanto isso, essa coisa plenamente pura menos como a dama da noite, uma entre tantos à espera de alguém ou algo vem mudar a nossa essência. Mas que é essência pode e deve ser mudada? É preciso mudar?
Então deixo mudar meu final, enquanto isso não vem, isso que não tem nome, e que, nós esperamos. Podemos nos deixar levar pela roda, onde qualquer um pode simplesmente irá tocar nossa Flor, dizer o quanto ela é bela e que irá prometer cuidados eternos, até a primeira pétala cair, até todo o gomo se desfazer, até todo o néctar se for, ainda sim esperaremos por algo que não tem nome, enquanto isso, acreditaremos no amor...
Este blog é um diário de bordo sobre a participação do Coletivo Artístico As Travestidas no Projeto do SESC Nacional Palco Giratório Edição 2014. Aqui são registrados quantidade de público, fotos de circulação, depoimentos, registros de apresentações, algumas considerações e agenda de circulação com o intuito de promover a divulgação e acesso ao nosso trabalho. obs. Todo e qualquer comentário considerado agressivo será analisado e retirado do blog. grato!
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